segunda-feira, abril 30, 2007

AMIGO




Mal nos conhecemos

Inaugurámos a palavra amigo!


"Amigo"

é um sorriso

De boca em boca,

Um olhar bem limpo,

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,

Um coração pronto a pulsar

Na nossa mão!


"Amigo"(recordam-se, vocês aí,

Escrupulosos detritos?)

"Amigo" é o contrário de inimigo!

"Amigo" é o erro corrigido

Não o erro perseguido, explorado,

É a verdade partilhada, praticada!


"Amigo" é a solidão derrotada!

"Amigo" é uma grande tarefa,

É um trabalho sem fim,

Um espaço sem fim,

Um espaço útil, um tempo fértil,

"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca

sexta-feira, abril 27, 2007

que te Posso Dar





Deu-te a magnólia o tropical perfume,
O oiro ao teu cabelo deu-lhe a cor,
E o astro-rei com todo o seu fulgor
Não tem, como os teus olhos, tanto lume.

Deu-te a pureza o passarinho implume,
Um anjo sideral deu-te o pudor,
E nem um alvorada tal frescor
No cristalino orvalho em si resume.

Ofélia deu-te a edénica expressão,
O íman deu-te a mística atracção,
E a alma, excelsa e pura, deu-te o céu…

Uma coisa, porém, em ti não sentes;
Mas como sobra em mim, se tu consentes,
O amor – que não possuis – cedo-te eu…

(J. Alves dos Reis)


domingo, abril 22, 2007

OS TEUS OLHOS



Os teus olhos
Como eles riem
Quando fazes amor.

E no êxtase
Em que mergulhas
Nesse ritual indescritível
De prazer e sofreguidão,
Os teus olhos
Suspiram.

Gemem prazeres.

Nunca vi assim outros iguais
Que pedindo sempre mais e mais
Perturbam-se, enlouquecem.

Nesse mesmo instante,
O teu peito ofegante
Cai desamparado nos meus braços


(Cunha Simões)

quarta-feira, abril 18, 2007



Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.

Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.

Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.

Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo



(Pablo Neruda)

quinta-feira, abril 12, 2007



El amor no se manifiesta en el deseo de acostarse con alguien, sino en el deseo de dormir junto a alguien


Milan Kundera

quarta-feira, abril 04, 2007

A noite na ilha


Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.

Os nossos sonos uniram-se
talvez muito tarde
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento agita
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

O teu sono separou-se
talvez do meu
e andava à minha procura
pelo mar escuro
como dantes,
quando ainda não existias,
quando sem te avistar
naveguei a teu lado
e os teus olhos buscavam
o que agora
- pão, vinho, amor e cólera -
te dou às mãos cheias,
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.

Dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra escura gira
com os vivos e os mortos,
e ao acordar de repente
no meio da sombra
o meu braço cingia a tua cintura.
Nem a noite nem o sono
puderam separar-nos.

Dormi contigo
e, ao acordar, tua boca,
saída do teu sono,
trouxe-me o sabor da terra,
da água do mar, das algas,
do âmago da tua vida,
e recebi teu beijo,
molhado pela aurora,
como se me viesse
do mar que nos cerca.


Os Versos do Capitão
Pablo Neruda