
Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 Jun 1888 — Lisboa, 30 Nov 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português.
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O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Finge tão completamente
Que chega fingir que é dor
A dor que deveras sente.
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Fernando Pessoa - Ortónimo
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Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário;
Viver não é necessário;
o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.
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...Homenagem aos vários heterónimos...
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Alberto Caeiro
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Caeiro, por seu lado, nascido em Lisboa teria vivido quase toda a vida como camponês, quase sem estudos formais, teve apenas a instrução primária, mas é considerado o mestre entre os heterónimos.
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Não sei quantas almas tenho.
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
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Ricardo Reis
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O heterónimo Ricardo Reis é descrito como sendo um médico que se definia como latinista e monárquico.
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Felizes
Felizes
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Felizes, cujos corpos sob as árvores
Jazem na úmida terra,
Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem
Das doenças da lua.
Verta Eolo a caverna inteira sobre
O orbe esfarrapado,
Lance Netuno, em cheias mãos, ao alto
As ondas estoirando.
Tudo lhe é nada, e o próprio pegureiro
Que passa, finda a tarde,
Sob a árvore onde jaz quem foi a sombra
Imperfeita de um deus,
Felizes, cujos corpos sob as árvores
Jazem na úmida terra,
Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem
Das doenças da lua.
Verta Eolo a caverna inteira sobre
O orbe esfarrapado,
Lance Netuno, em cheias mãos, ao alto
As ondas estoirando.
Tudo lhe é nada, e o próprio pegureiro
Que passa, finda a tarde,
Sob a árvore onde jaz quem foi a sombra
Imperfeita de um deus,
Não sabe que os seus passos vão cobrindo
O que podia ser,
Se a vida fosse sempre vida, a glória
De uma beleza eterna.
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Álvaro de Campos
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Entre todos os heterónimos, Álvaro de Campos foi o único a manifestar fases poéticas diferentes ao longo de sua obra.
Era um engenheiro de educação inglesa e origem portuguesa, mas sempre com a sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte do mundo.
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Lisboa
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Lisboa com suas casas
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Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores ...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.
Se, de noite, deitado mas desperto,
Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.
Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
A força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.
Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.
3 comentários:
Um tributo merecidíssimo.
Cumps
Eu estou como o FP:- Não sei quantas almas tenho.
Pessoa exprime frequentemente a unidade fundamental existente entre o mundo intimo e o mundo exterior. Quando o fio passa entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, há, de um lado, o sentimento de que, num mundo dominado pelos Fados ou pelo capricho de forças desconhecidas (opostos que se equivalem), toda a sabedoria consiste só na estimativa e opção astuta entre dores e prazeres prováveis: só dentro da curta medida em que o homem é consciente e se autodetermina pelas poucas razões que conhece, é ele verdadeiro quem é.
Ainda assim é razoável recordar...
Abraço
Paulo
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