
Aos Poetas
Somos nós
As humanas cigarras!
Nós,
Desde os tempos de Esopo conhecidos.
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.
Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós,
a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos
A passar!...
Somos nós,
e só nós podemos ter Asas sonoras,
Asas que em certas horas Palpitam,
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura!
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.
Por isso a vós,
Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz!
Vinho que não é meu,
mas sim do mosto que a beleza traz!
E vos digo e conjuro que canteis!
Que sejais menestreis
De uma gesta de amor universal!
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural!
Homens de toda a terra sem fronteiras!
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele!
Crias de Adão e Eva verdadeiras!
Homens da torre de Babel!
Homens do dia a dia
Que levantem paredes de ilusão!
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão!
4 comentários:
Olá...
Porque Miguel Torga me faz sentir ORGULHO da minha nacionalidade... pela sua grandiosidade, tantas vezes esquecida.... a todos os que o lembram deixo algo que considero belíssimo:
«Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pudesse combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)
Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente...
E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.
Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.»
Miguel Torga
Antologia Poética
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999
Olá Manza
O teu Blog fala de Amor.
De sensibilidades escondidas que só quem tem olhos V~e
Só quem sabe o que é poesia Lê
E só quem sabe ver a alma descobre.
Bjito
E uma noemação.
Olá Ni
É verdade.
Miguel Torga, um dos grandes expoentes da Literatura Poética Portuguesa do séc XX deixou-nos um grande legado que não podemos ignorar e que é necessário divulgar.
Olá Cléo
Comparado com o seu Blog (Esse sim fala de AMOR)o meu não é nada.
Limito-me a escolher este ou aquele texto que mais gosto e divulgo para quem quer ver ou ouvir.
Mesmo assim muito obrigada pela oferta.
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