domingo, agosto 12, 2007

Homenagem a MIGUEL TORGA


Aos Poetas

Somos nós

As humanas cigarras!

Nós,

Desde os tempos de Esopo conhecidos.

Nós,

Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas

Da fábula burguesa da formiga.

Nós,

a tribo faminta de ciganos

Que se abriga

Ao luar.

Nós, que nunca passamos

A passar!...

Somos nós,

e só nós podemos ter Asas sonoras,

Asas que em certas horas Palpitam,

Asas que morrem, mas que ressuscitam

Da sepultura!

E que da planura

Da seara

Erguem a um campo de maior altura

A mão que só altura semeara.

Por isso a vós,

Poetas, eu levanto

A taça fraternal deste meu canto,

E bebo em vossa honra o doce vinho

Da amizade e da paz!

Vinho que não é meu,

mas sim do mosto que a beleza traz!

E vos digo e conjuro que canteis!

Que sejais menestreis

De uma gesta de amor universal!

Duma epopeia que não tenha reis,

Mas homens de tamanho natural!

Homens de toda a terra sem fronteiras!

De todos os feitios e maneiras,

Da cor que o sol lhes deu à flor da pele!

Crias de Adão e Eva verdadeiras!

Homens da torre de Babel!

Homens do dia a dia

Que levantem paredes de ilusão!

Homens de pés no chão,

Que se calcem de sonho e de poesia

Pela graça infantil da vossa mão!



4 comentários:

Ni disse...

Olá...

Porque Miguel Torga me faz sentir ORGULHO da minha nacionalidade... pela sua grandiosidade, tantas vezes esquecida.... a todos os que o lembram deixo algo que considero belíssimo:

«Não tenho mais palavras.


Gastei-as a negar-te...


(Só a negar-te eu pudesse combater


O terror de te ver


Em toda a parte.)



Fosse qual fosse o chão da caminhada,


Era certa a meu lado


A divina presença impertinente


Do teu vulto calado


E paciente...



E lutei, como luta um solitário


Quando alguém lhe perturba a solidão.


Fechado num ouriço de recusas,


Soltei a voz, arma que tu não usas,


Sempre silencioso na agressão.



Mas o tempo moeu na sua mó


O joio amargo do que te dizia...


Agora somos dois obstinados,


Mudos e malogrados,


Que apenas vão a par na teimosia.»



Miguel Torga


Antologia Poética


Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999

Cleopatra disse...

Olá Manza
O teu Blog fala de Amor.
De sensibilidades escondidas que só quem tem olhos V~e
Só quem sabe o que é poesia Lê
E só quem sabe ver a alma descobre.
Bjito
E uma noemação.

M@nza disse...

Olá Ni
É verdade.
Miguel Torga, um dos grandes expoentes da Literatura Poética Portuguesa do séc XX deixou-nos um grande legado que não podemos ignorar e que é necessário divulgar.

Olá Cléo
Comparado com o seu Blog (Esse sim fala de AMOR)o meu não é nada.
Limito-me a escolher este ou aquele texto que mais gosto e divulgo para quem quer ver ou ouvir.
Mesmo assim muito obrigada pela oferta.

Cleopatra disse...
Este comentário foi removido pelo autor.